Portugal está entre os países mais soalheiros da Europa — e ainda assim, a maioria dos portugueses tem níveis insuficientes de vitamina D. Parece um paradoxo, mas a explicação envolve genética, hábitos alimentares e uma ideia enganosa sobre quanto sol basta.
O que faz a vitamina D no corpo
A vitamina D ajuda o intestino a absorver cálcio e fósforo, os minerais que mantêm os ossos fortes. Participa também no funcionamento do sistema imunitário e muscular. A maior parte é produzida na própria pele quando esta é exposta à radiação ultravioleta B (UVB) do sol — só uma pequena fração vem da alimentação.
O paradoxo português: sol a mais, vitamina a menos
Um estudo do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) e do Centro Hospitalar Universitário do Porto, publicado no Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, avaliou 198 adultos saudáveis do Norte de Portugal e encontrou insuficiência de vitamina D em cerca de 78% das pessoas — quase metade (48%) com deficiência grave.
O valor varia ao longo do ano: no verão, a insuficiência afeta 62% das pessoas estudadas; no inverno, sobe para cerca de 95%. Mesmo no verão, com muito mais sol disponível, os números continuam surpreendentemente altos — os investigadores associam isto ao facto de muitas pessoas não cumprirem os 10 a 15 minutos diários de exposição solar direta considerados suficientes.
Dados mais recentes, divulgados em novembro de 2025, apontam que cerca de seis em cada dez adultos portugueses têm défice de vitamina D — um problema que os investigadores já classificam como de saúde pública.
Porque é que a genética também conta
Parte da explicação não tem a ver com hábitos, mas com biologia. O estudo VITACOV, coordenado pelo Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa, identificou variantes genéticas que reduzem a capacidade de produzir vitamina D a partir da exposição solar. Estas variantes estão presentes em cerca de 20% da população portuguesa — uma prevalência quatro vezes superior à média europeia.
Ou seja: mesmo apanhando a mesma quantidade de sol que alguém no Norte da Europa, uma parte significativa dos portugueses produz menos vitamina D, por razões genéticas.
Porque é que isto importa
O défice prolongado de vitamina D está associado a maior risco de osteoporose — que já afeta cerca de 800 mil portugueses — e as projeções apontam para um aumento de 32% nas fraturas relacionadas com esta doença nos próximos 25 anos. Tem sido também associada ao funcionamento do sistema imunitário e cardiovascular, à fadiga persistente e à dor crónica, embora a relação de causa-efeito continue a ser estudada em várias destas áreas.
Como melhorar os níveis de vitamina D
- Exposição solar direta — cerca de 10 a 15 minutos por dia, em braços e pernas, sem protetor solar, fora das horas de maior calor.
- Peixes gordos — sardinha, cavala e salmão são das melhores fontes alimentares.
- Gema de ovo e cogumelos — contribuem em menor quantidade.
- Análise ao sangue — é a única forma fiável de conhecer o nível real de vitamina D (25-hidroxivitamina D); a suplementação deve ser sempre orientada por esse resultado.
Factos curiosos sobre a vitamina D
- Não é bem uma vitamina. Tecnicamente, funciona como uma hormona — o corpo consegue produzi-la sozinho, ao contrário das vitaminas verdadeiras, que têm sempre de vir da alimentação.
- A “doença inglesa”. Durante a Revolução Industrial, o fumo denso das fábricas bloqueava tanto a luz solar nas cidades britânicas que o raquitismo, causado por défice severo de vitamina D, se tornou tão comum que ficou conhecido como “doença inglesa”.
- Os astronautas também sofrem disto. Sem exposição à luz solar direta no espaço, têm de tomar suplementos de vitamina D durante as missões.
- A pele escura precisa de muito mais tempo de sol. A melanina funciona como um protetor solar natural, pelo que peles mais escuras podem precisar de três a seis vezes mais tempo de exposição para produzir a mesma quantidade de vitamina D.
- O vidro bloqueia a produção. Apanhar sol através de uma janela não conta — o vidro filtra praticamente toda a radiação UVB responsável por ativar a vitamina D na pele.
Quando procurar um profissional de saúde
Fadiga persistente sem explicação, dores ósseas ou musculares frequentes, fraqueza muscular ou fraturas que acontecem com traumas ligeiros são sinais que justificam uma consulta médica e, possivelmente, uma análise aos níveis de vitamina D. Só um profissional de saúde pode interpretar corretamente os resultados e recomendar a suplementação adequada.
Fontes: ICBAS / Centro Hospitalar Universitário do Porto (Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology); estudo VITACOV, Universidade de Lisboa; Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM); Renascença, novembro de 2025.
Este artigo tem um propósito exclusivamente informativo e não substitui uma consulta médica, diagnóstico ou tratamento profissional. Se tiver preocupações sobre a sua saúde, fale com um médico.