Colesterol bom e mau: o que os números da análise ao sangue significam

Cerca de 58% dos portugueses tem colesterol elevado — a percentagem mais alta da Europa, que já está nos 54%. Mas “colesterol” não é uma coisa só, e nem todo o colesterol é o vilão que a palavra sugere. Sem ele, o corpo nem sequer conseguiria produzir hormonas ou construir células. O problema não é ter colesterol — é o equilíbrio entre os diferentes tipos.

Afinal, para que serve o colesterol

O colesterol é uma substância gorda essencial: entra na construção das membranas de todas as células do corpo, é a base para produzir hormonas como o estrogénio e a testosterona, participa na síntese de vitamina D e é necessário para produzir a bílis que ajuda a digerir gordura. O fígado, sozinho, já produz cerca de 80% do colesterol que o corpo precisa — só os restantes 20% vêm diretamente da alimentação.

Porque é que se fala em colesterol “bom” e “mau”

O colesterol não circula sozinho no sangue — anda transportado por proteínas, formando as chamadas lipoproteínas. São estes “veículos de transporte” que costumam ser chamados, de forma simplificada, de colesterol bom e mau:

  • LDL (colesterol “mau”) — transporta colesterol do fígado para as células. Em excesso, tende a depositar-se nas paredes das artérias, formando placas que estreitam a passagem do sangue.
  • HDL (colesterol “bom”) — faz o percurso inverso: recolhe o colesterol em excesso dos tecidos e das artérias e devolve-o ao fígado para ser eliminado. Níveis ideais: acima de 40 mg/dL nos homens e 50 mg/dL nas mulheres.

Ou seja: não são dois tipos diferentes de colesterol quimicamente, mas dois sistemas de transporte com efeitos opostos na saúde das artérias.

O que dizem os números em Portugal

Segundo dados citados por instituições de saúde portuguesas, cerca de 68,5% dos portugueses apresenta colesterol total igual ou superior a 190 mg/dL. Desse universo, aproximadamente um quarto está em risco elevado (acima de 240 mg/dL) e 45,1% em risco moderado (entre 190 e 239 mg/dL). Um estudo em cuidados de saúde primários encontrou uma prevalência de hipercolesterolemia próxima dos 47 a 53%, mais frequente em homens entre os 30 e os 60 anos e em mulheres após a menopausa — altura em que a queda de estrogénio tende a alterar o perfil lipídico.

A nível mundial, o colesterol elevado é responsável por cerca de um terço de todas as doenças cardiovasculares, 56% da doença coronária e 18% da doença cerebrovascular.

Como melhorar o perfil lipídico

  • Gorduras insaturadas — azeite, frutos secos e peixe gordo ajudam a subir o HDL.
  • Menos gordura saturada e trans — presentes em fritos, produtos processados e alguns produtos de pastelaria, tendem a subir o LDL.
  • Fibra solúvel — aveia, leguminosas e fruta ajudam a reduzir a absorção de colesterol no intestino.
  • Exercício físico regular — um dos fatores mais eficazes para subir o HDL.
  • Análise ao sangue periódica — é a única forma de saber os valores reais; a interpretação e eventual tratamento devem ser sempre feitos por um médico.

Factos curiosos sobre o colesterol

  • Comer ovos não é o grande vilão que se pensava. A investigação mais recente mostra que, para a maioria das pessoas, o colesterol dos alimentos tem um impacto bem menor no colesterol do sangue do que as gorduras saturadas e trans.
  • Há uma forma hereditária de colesterol alto. A hipercolesterolemia familiar, uma condição genética, afeta entre 1 em cada 200 a 1 em cada 500 pessoas — e a maioria não sabe que a tem.
  • O cérebro é o órgão com mais colesterol do corpo. Cerca de 25% de todo o colesterol do organismo está concentrado no cérebro, essencial para as ligações entre neurónios.
  • Nem todas as células precisam de o produzir. Como o fígado fabrica colesterol suficiente para todo o corpo, a maioria das células não precisa de o sintetizar — recebe-o já pronto através do sangue.
  • O LDL e o HDL não existem enquanto tal no sangue de recém-nascidos. Os níveis de colesterol começam baixos à nascença e vão subindo gradualmente ao longo da vida, sobretudo a partir da meia-idade.

Quando procurar um profissional de saúde

O colesterol elevado normalmente não causa sintomas — por isso a análise ao sangue periódica é a única forma fiável de o detetar. Histórico familiar de doença cardíaca precoce, colesterol muito elevado numa análise, ou fatores de risco como hipertensão e diabetes são motivos para discutir com um médico a frequência ideal de rastreio e uma eventual necessidade de tratamento.

Fontes: CUF; Direção-Geral da Saúde; Revista Portuguesa de Cardiologia (estudo do perfil lipídico em cuidados de saúde primários em Portugal).


Este artigo tem um propósito exclusivamente informativo e não substitui uma consulta médica, diagnóstico ou tratamento profissional. Se tiver preocupações sobre a sua saúde, fale com um médico.